1. Pictura rescripta
Uma parede de azulejos portugueses azuis e brancos cujas figuras não ficam no lugar. Atrás de uma grade cerâmica real, quatro painéis de papel eletrônico sustentam cenas tiradas dos Emblemata Horatiana de Otto van Veen (Antuérpia, 1607). Quando um visitante para diante da parede, uma figura é lentamente substituída por outra — e a moral do emblema já não é a que era.
Pictura rescripta é uma parede de azulejos portugueses — 48 azulejos numa grade de 8 × 6, mais ou menos do tamanho de uma folha A0 deitada — construída com quatro painéis de papel eletrônico colorido instalados atrás de uma grade cerâmica real, com rejunte real. Nada na parede emite luz; como um azulejo, ela só é vista pela luz da sala. Os painéis carregam cenas figurativas no registro azul e branco da azulejaria portuguesa clássica, tiradas dos emblemas dos Emblemata Horatiana de Otto van Veen (Antuérpia, 1607) — livro depois difundido em castelhano como Theatro Moral, cujas gravuras forneceram cenas morais a painéis de azulejo por todo o mundo português. O caso de referência é o claustro do Convento de São Francisco, em Salvador, onde 37 painéis assentados entre 1746 e 1748 trazem emblemas escolhidos entre as 103 imagens do livro; não se sabe de qual edição os frades partiram.
As figuras não ficam no lugar. Quando um visitante para diante da parede, uma figura — uma pessoa, um objeto, uma peça de cenário, ocupando azulejos inteiros — é substituída por outra. A substituição não é instantânea: o papel eletrônico repinta devagar, e os cerca de dezoito segundos em que a figura antiga cede lugar à nova são o material da obra, não um defeito. O espectador vê antes, durante e depois.